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Pilha Nacional de IA: Grau de soberania tecnológica do Brasil

O Brasil avança, mas ainda está longe da autonomia plena em computação de alto desempenho (HPC) e inteligência artificial (IA). Embora o país conte com talentos e centros de pesquisa de excelência, a infraestrutura nacional ainda é fragmentada, com forte dependência de hardware, nuvens comerciais e bibliotecas desenvolvidas no exterior.

Panorama atual: competências e fragilidades

Há competência instalada em universidades, institutos federais e centros de referência como o LNCC (Laboratório Nacional de Computação Científica). O país forma bons profissionais em ciência de dados, machine learning e engenharia de software, mas enfrenta limitações estruturais que impedem a consolidação de um ecossistema soberano.

O grau atual de soberania tecnológica pode ser classificado como baixo a médio, caracterizado por:

  • Clusters isolados, de pequena escala e subutilizados;
  • Escassez de aceleradores de IA (GPU/TPU) de alto desempenho;
  • Forte dependência de serviços de nuvem estrangeiros;
  • Baixa produção de modelos fundacionais em português.

Deficiências críticas

Infraestrutura de hardware

  • Capacidade limitada de GPU/HBM: poucos clusters de médio porte, insuficientes para treinar ou ajustar grandes modelos.
  • Interconexão deficiente: ausência de fabrics de alta velocidade (200–400 Gb/s) e topologias NVLink/NVSwitch.
  • Data centers ineficientes: falta de suporte para racks de 60–100 kW, resfriamento líquido e PUE < 1,3.
  • Armazenamento paralelo insuficiente: throughput agregado ainda aquém do necessário para treinos distribuídos modernos.

Pilha de software e dados

  • Treino distribuído imaturo: pouca experiência em otimizações como ZeRO, tensor ou pipeline parallel.
  • Dependência de compiladores externos: baixa contribuição nacional a frameworks críticos como XLA, Triton e TVM.
  • Modelos soberanos escassos: falta de modelos fundacionais em português limita a autonomia em NLP e agentes conversacionais.
  • MLOps e segurança desiguais: ausência de padrões nacionais de reprodutibilidade, auditoria e conformidade LGPD.
  • Governança de dados incipiente: falta de data trusts setoriais e curadoria contínua de datasets públicos.

Janelas de superação

Apesar das deficiências, há caminhos claros e viáveis para elevar o nível de soberania tecnológica do país. Essas ações podem ser estruturadas em três horizontes temporais:

Curto prazo (6–12 meses)

  • Implantar hubs regionais com clusters de ≥ 32 GPUs, interconexão de 200 Gb/s e hot tier ≥ 50 GB/s.
  • Criar um marketplace federado de computação, conectando universidades e centros de pesquisa.
  • Lançar um fundo nacional para manutenção de bibliotecas e datasets em português.
  • Produzir modelos compactos (7–13B parâmetros) otimizados para RAG e agentes locais.

Médio prazo (12–24 meses)

  • Expandir hubs para 64–128 GPUs, implementar resfriamento líquido e throughput ≥ 200 GB/s.
  • Publicar modelos estratégicos de 30–65B parâmetros em português.
  • Estabelecer data trusts em setores críticos como saúde, agro e clima.
  • Consolidar práticas de MLOps e governança unificada de dados em âmbito nacional.

Longo prazo (24–60 meses)

  • Operar uma rede federada nacional com ≥ 1.000 GPUs e PUE ≤ 1,2.
  • Ofertar serviços de IA soberanos em escala, como saúde digital, previsão climática e defesa cibernética.
  • Criar carreiras técnicas estáveis para especialistas em HPC/IA, reduzindo a fuga de talentos.

Síntese e visão estratégica

Com planejamento federado, fundo plurianual e governança tripartite (governo–academia–indústria), o Brasil pode alcançar autonomia operacional em 24–36 meses e consolidar capacidade estratégica em 3–5 anos.

Essa trajetória permitiria ao país:

  • Reduzir dependência de nuvens e hardwares estrangeiros;
  • Fortalecer a indústria nacional de semicondutores e software científico;
  • Garantir soberania digital e tecnológica;
  • Posicionar o Brasil como provedor de IA em português para a América Latina.

Conclusão

O futuro da inteligência artificial depende da infraestrutura que a sustenta. Se o Brasil deseja ser protagonista nessa nova era, precisa investir não apenas em algoritmos, mas em hardware, dados e pessoas.

A soberania tecnológica em HPC e IA é mais que uma meta — é um pilar estratégico para o desenvolvimento nacional.

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