Como governo, empresas e universidades podem construir juntos a base da soberania digital brasileira
A construção de uma infraestrutura tecnológica nacional de Inteligência Artificial (IA) não é um desafio apenas técnico — é político, econômico e institucional. Nenhum ator isolado tem recursos ou incentivos suficientes para sustentar, sozinho, investimentos de longo prazo em HPC (High Performance Computing), dados abertos, software e formação de talentos.
O Brasil só alcançará autonomia tecnológica se governo, universidades, ICTs e empresas privadas atuarem de forma coordenada, em um modelo de governança federada e sustentável.
O papel do setor público
O setor público é o pilar estruturante da política de IA nacional. Sua missão é garantir previsibilidade, escala e segurança jurídica. Entre suas responsabilidades, destacam-se:
a) Fomento e coordenação: criação de um Fundo Nacional de IA, com recursos plurianuais blindados de contingenciamentos. b) Compras públicas inovadoras: governo atuando como cliente-âncora, contratando soluções de IA em áreas estratégicas como saúde, agro, educação e clima. c) Infraestrutura de base: investimento direto em data centers verdes, clusters regionais de GPU e redes de alta velocidade integradas à RNP. d) Regulação e segurança jurídica: contratos-padrão, incentivos fiscais para P&D, e políticas de proteção de dados alinhadas à LGPD.
O papel do setor privado
As empresas são o motor da eficiência, da escala e da inovação aplicada. Sua contribuição passa por:
a) Coinvestimento: participação em consórcios com matching funds, em que cada R$ 1 privado atrai R$ 1 público. b) Transferência tecnológica: transformação de protótipos acadêmicos em produtos escaláveis e comercialmente viáveis. c) Operação e manutenção: oferta de serviços especializados em MLOps, segurança e computação em nuvem. d) Aporte de dados e validação: disponibilização de bases operacionais sob governança e validação em campo.
Mecanismos de articulação
1. Consórcios permanentes por missão Integram universidades, ICTs e empresas em torno de temas estratégicos — como saúde digital, agro inteligente e defesa cibernética. Cada consórcio atua com governança tripartite, metas plurianuais e entregáveis abertos, garantindo continuidade e transparência.
2. Marketplace federado de computação Operado por instituições como LNCC e RNP, esse sistema distribui cotas de GPU/HPC entre universidades, startups e órgãos públicos. Recursos públicos garantem a base, enquanto empresas compram créditos adicionais, ampliando a capacidade compartilhada.
3. Data trusts setoriais Instituições como Fiocruz, Embrapa e INPE coordenam repositórios de dados abertos e controlados, com LGPD by design e auditoria contínua. Empresas e órgãos públicos fornecem dados e, em troca, recebem modelos e análises validadas.
4. Incentivos fiscais e regulatórios Empresas que investirem em HPC verde, eficiência energética e manutenção de bibliotecas abertas podem ter redução de tributos. Sandboxes regulatórios permitem testar soluções de IA em áreas sensíveis como saúde, finanças e justiça.
5. Compras cooperativas União, estados e municípios contratam em bloco serviços de IA validados nos consórcios, garantindo demanda recorrente e previsibilidade de mercado.
Síntese
O desenvolvimento de uma infraestrutura nacional de IA exige mais do que tecnologia — exige articulação institucional e visão de país. O governo oferece estabilidade e escala; o setor privado traz agilidade, dados e operação; as universidades e ICTs formam talentos e geram inovação.
Ao unir essas forças em um modelo federado de investimento e governança, o Brasil pode transformar esforços isolados em uma capacidade nacional contínua, sustentável e soberana em IA.
A Evolua.ai acredita que soberania digital se constrói em rede — com propósito, inteligência e colaboração.